the ghost of you lingers *

via unsplash

* é uma música do Spoon

encerramentos são importantes. por isso ghosting é uma coisa tão cruel. falta um final.

em termos práticos o final até existe. mas ele é indefinido —pode ser tanto o momento em que uma mensagem fica sem resposta quanto, sei lá, um ato falho qualquer. o ghosting deixa pendente o tal do ponto final. incomoda.

eu prefiro usar o bom e velho “tomar/dar um perdido” mas de fato ghosting, o termo, cresceu em relevância e identificação em tempos digitais. pegou como nome dado para quando aquela pessoa (em qualquer etapa, ok? pode ser um crush no comecinho, pode ser um namoro estabelecido, não é questão de tempo ou acordo) simplesmente some sem dar um tchau ou uma explicação. sintoma: visualizou. e. não. respondeu. nunca. mais.

o que acontece com a protagonista de Copo Vazio (Natalia Timerman, editora Todavia, 2021) é um ghosting clássico: o casinho está indo bem, há uma rotina estabelecida, existem planos em conjunto. até que o moço não responde uma mensagem. simples assim. enlouquecedor. ele não explica, apenas some. dá o tal do perdido.

é um livro curtinho, cerca de 140 páginas. mais uma novela que um romance. li em uma deitada no sofá numa tarde de sábado. fui pega pelo abre: o primeiro capítulo, onde a protagonista expõe um futuro hipotético. é um bom começo de livro e um ótimo final de romance da vida real. um encerramento. closure, pra usar outro termo em inglês, num modelo que já passou pela cabeça de todo mundo que lidou com romance ruim, e que talvez até tenha acontecido com algumas pessoas felizes por aí.

a Natália, que é psiquiatra, amarra bem acontecimentos pontuais que explicam o sofrimento da protagonista. impossível não pensar que poderia ser conosco. só que tem o outro lado, nunca relatado — não é o caso mesmo, o livro não é sobre ele, é sobre ela. mas, ainda assim, sempre tem um outro lado. e quanto mais eu lia a história mais eu me irritava com a mocinha, se fosse uma amiga estaria dando broncas: mulherrrrrrr peloamordadeusa acorde! quanto mais avançava na história, mais começava a pensar se eu de repente já não estive no lugar daquele cara? sim? não? será possível? eu já dei um ghosting grosseiro assim, de desaparecer mesmo, ir pra casa da avó no interior, não dar nem uma explicaçãozinha suave? não, nunca. não desse jeito. mas eu já dei (e tomei) meus perdidos, claro, só que tenho senso prático: é bem mais fácil falar a real e lidar com isso rapidamente do que ficar com uma pessoa enlouquecida no seu pé mandando mensagem todos os dias, várias vezes por dia.

há um tipo de narcisismo perverso aí.

uma máxima de relacionamentos ruins é que o poder sempre está com quem não se importa. a dinâmica de necessidade/silêncio na ~interação de Copo Vazio escancara essa falta de equilíbrio que um lado é se importar em excesso e o outro não estar nem aí. tão nem aí que não se dá o trabalho sequer de tentar explicar. é confortável. com certeza há explicações internas sobre isso, só não há a necessidade de comunicar.

não tem nem um “não é você, sou eu”. só silêncio. o que não deixa de ser um tipo de controle.

ps: veja o papo entre Natália e a colega escritora Giovana Madalosso na Flima 2021.

--

--

https://linktr.ee/GaiaPassarelli

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store