Tão nostálgica quanto a Karen Blixen

(da internet)

Acabei de reler “A Fazenda Africana”, da Karen Blixen (ou Karen Christence, nome de batismo, ou Isak Dinesen, pseudônimo literário que caiu em desuso).

“Reler“ talvez seja desonesto: eu tinha certeza de que já tinha lido esse livro, que há anos carrego na estante naquela bonita versão da CosacNaif, até começar a ler e perceber que aqueles parágrafos não me eram familiares. Página após página sem reconhecer frase ou passagem. Ou a memória afetiva me traiu, ou eu li em outra vida que não essa de agora. Tem sido comum: em conversas com amigos aparecem fatos sobre os quais tenho nenhuma lembrança, abro um caderno antigo e resgato um acontecimento que parece inédito mas escrito com a minha letra, assinado por mim. Boto na conta da minha dislexia autodiagnosticada — que continuo vagando pelos dias sem prestar atenção de verdade em qualquer coisa que seja.

É um caderno traz o pensamento de volta pra Karen: ela não teria escrito e publicado ”A Fazenda Africana”, seleção de relatos e observações sobre a vida no Quênia durante a ocupação britânica, se não tivesse carregado seus cadernos na bagagem ao voltar para a Dinamarca no começo da década de 1930. Por serem distantes, tanto em tempo quanto em espaço (“A Fazenda Africana” foi publicado em 1937) suas memórias tem uma enorme dose de nostalgia romântica. Karen olha para o seu passado, e para si mesma, sempre com uma generosa dose daquele perdão afetuoso da saudade.

É uma leitura carregada de problemas, claro: 320 páginas de uma Salvadora Branca encantada por “seus” nativos, vistos como esforçados e gentis. Os habitantes locais, africanos de diferentes tribos e etnias, vivem de trabalhar na fazenda seis dias por semana para no sétimo poder “descansar ou cuidar de suas próprias hortas”, essas cedidas pela senhora branca em terras que, claro, eram deles antes, eram deles desde tempos imemoriais. Para poder apreciar o que Karen escreve é preciso não separar artista e obra, mas lidar de forma objetiva com essas passagens. Ignorar que o mundo já foi assim, e ainda é em muitos lugares, vai fazer você fechar o livro na primeira tentativa. Melhor assumir que essa visão já foi considerada muito humana e justa — a própria Karen era uma coração mole comparada aos homens que invadiram aquelas terras antes dela. As partes realmente ruins, claro, não estão ali. Mas esse não é um livro de relatos sólidos sobre a violência do processo colonial.

É um romance. E mais: é um romance pudico. Quem pegar o livro esperando cenas tórridas de amor romântico entre Robert Redford e Meryl Streep (”Entre Dois Amores” é livremente inspirado na historia de Karen e o caçador Denys Finch Hatton) vai se decepcionar. Bobagem.Assim como no filme, o sublime aqui está nas paisagens do Quênia vistas pelas lentes cor de rosa do amor sincero que Dinensen sentiu por um lugar e modo de vida que viu desaparecer até ser obrigada a abandonar. Vai achar registros de um continente que não existe mais, de animais selvagens, costumes masais, cultura somali, corpos e jeitos de vestir e cuidar da terra que hoje existem em livros como esse e, claro, na historia oral daqueles que sobreviveram à invasão europeia. De um jeito paternalista e torto, mas com uma proximidade muito rara em relatos coloniais.

Isso se deve, claro, ao fato de Karen ser mulher, tão dona das próprias terras quanto possível naquele tempo e lugar. Ela nunca foi mãe, então os quicuios que vivem na fazenda (que ela chama de ”meus quicuios”) ganham contornos de família, inclusive no afeto que ela acredita que eles nutrem de volta por sua figura.

Mas o importante é que Karen não ficou com sua fazenda. Nem com “seus animais” ou com “seus nativos”. Uma série de acontecimentos (narrados de forma bem diferente no filme) como guerras, incêndios, brigas entre tribos e trocas de lideranças coloniais, além de uma falta de jeito para o comercio de café, acabam por a obrigar a vender a fazenda e tudo que há nela, voltando sozinha para a Dinamarca, que fica parecendo um lugar escuro, gelado e solirário, um tipo de clausura depois dos anos debaixo do céu da fazenda aos pés das montanhas Ngongo.

Karen veria de perto a ascensão do nazismo, a devastação da Segunda Guerra. Não parece que teve uma vida feliz. Jamais voltou a botar os pés no Quênia ou em qualquer parte da África que amava.

Karen se tornou escritora. E por isso idealizou e romantizou de forma profunda seus personagens e seu papel nas vidas deles. A única coisa que talvez ela não consiga idealizar o suficiente é o cenário da sua fazenda africana. Mas ela tenta, enquanto escreve um livro que no fundo é sobre luto. Sobre a morte de pessoas, de um lugar, a morte de um mundo, de animais, de amigos, a morte do que ela julga

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Gaía Passarelli

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