“Severance”

(algum muro de SP durante a fase vermelha da quarentena, meados de 2020)

Acabei de ler “Severance“ (em português: separação), da Ling Ma, romance distópico, lançado em fins de 2018 — antes, portanto, da pandemia. O livro curto, que ainda não saiu em português, conta a história de uma jovem chinesa vivendo em Nova Iorque quando em questão de poucos meses uma bactéria super contagiosa destrói o que parece ser toda civilização ocidental. Parece porque não sabemos detalhes. Não sabemos porque somos guiados apenas pela percepção de Candace Chen, que vem e vai de lembranças da infância na China ao desmonte do mundo ao seu redor.

Ela é uma das poucas pessoas não infectadas pela bactéria transmissora da Shen Fever, também de origem chinesa — ou pelo menos assim parece. Ao insistir em manter a rotina de ir e vir do trabalho apesar de qualquer acontecimento externo ou interior, ela deixa no ar pro leitor se sua mania de rotina é menos um sintoma maníaco da vida no capitalismo tardio e mais uma variação leve da febre, que mata tornando as pessoas em zumbis presos em loops de atividades cotidianas. A diferença talvez esteja apenas na intensidade dos sintomas. O indivíduo afetado se torna incapaz de agir-pensar para além de uma ou duas funções familiares. A Shen Fever começa com sintomas leves, como dor de cabeça e febre baixa, e leva o doente a ficar preso na repetição ininterruptível de alguma atividade cotidiana. Nessa distopia os zumbis não estão tentando matar os sãos. Sequer os enxergam. Eles morrem de tanto limpar a casa, arrumar a cama, molhar as plantas ou pentear os cabelos. Repetem funções até o corpo apodrecer, desligando por exaustão.

Aparentemente imune à gripe, Candace continua indo para o escritorio mesmo que não exista mais trabalho a ser feito. Mesmo que não exista mais metrô. Mesmo que não exista mais Times Square. Mesmo que não exista mais razão. É uma ética de trabalho levada às ultimas consequências, uma capacidade anormal de autogestão que acaba sendo a razão para Candace sobreviver.

A crítica do livro é óbvia — a sociedade é formada por zumbis presos em suas atividades pessoais corriqueiras que servem apenas para manter o capitalismo funcionando até o momento em que todo mundo morre. Vale para ricos e pobres, jovens e velhos, negros e brancos. Nos apegamos ao que é mais conhecido, familiar e rotineiro enquanto a sociedade declina, nossos corpos junto com ela. É um livro interessante, talvez apressado, que poderia ter passado batido não fosse a pandemia de 2020.

Acontece que ”Severance” continua comigo. Na minha própria rotina maníaca. No abrir das janelas de manhã, beber três copos de água fresca do filtro de barro, fazer xixi enquanto a Jezebel morde minha canela pedindo comida, na xícara de café feat. palavra cruzada que faço todos os sábados. Desde março do ano passado a unica coisa que difere os dias úteis dos finais de semana é que nesses últimos eu não abro o computador. Ás vezes meu filho me visita, às vezes eu visito alguém. A sensação de velhice precoce do meu semi-isolamento, agora em seu décimo mês, me torna ansiosa por tomar vacina e sair pra sentar em calçadas sujas.

Modo contínuo, busco uma forma de sobreviver mantendo certa ordem por dentro e por fora. Cozinhar, comer bem, me exercitar, ter contatos de segurança que não abalem minha autonomia e me impeçam de descer de novo praquele lugar quentinho e insalubre de obsessões e demais comportamentos autodestrutivos. Tudo com foco no “quando tudo isso aí passar”.

A rotina é minha vacina contra a Shen Fever do mundo real. Sigo fazendo tudo igual todos os dias, agarrada na esperança de sair do outro lado.

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