São Paulo, Quimera

(terreno baldio na Av Paulista, ao lado da FIESP, jan/2020)

São Paulo não existe. É uma cidade diferente pra cada pessoa que habita esse enorme pedaço de chão no sudeste do que é conhecido como Brasil. Não há unidade quando se tem vinte milhões de habitantes — e seguimos contando. É uma amplitude que impede qualquer registro. Verdade para qualquer grande cidade do mundo: partes demais para tentar descrever.

São Paulo existe através de vinhetas. A janela do meu apartamento é tão São Paulo quanto a visão da balsa entre o Grajaú e a ilha do Bororé. A minha São Paulo é diferente da São Paulo do meu vizinho de prédio. Quando estamos falando de situação social (portanto: de privilégios) a minha cidade é muito parecida, mas apenas isso, com a cidade da minha irmã. Quando estamos falando de afinidades, a minha cidade tem muito em comum com a cidade dos meus amigos mais próximos. Quando estamos falando de rotina, a minha cidade pode ser parecida com a cidade dos meus colegas de trabalho, que pisaram as mesmas calçadas onde eu pisava todos os dias. Mas por mais que cruzem endereços e experiências, a cidade de duas pessoas nunca é idêntica, em especial agora, quando parte da população segue vendo a cidade pelas janelas dos carros e outra pelo chão das calçadas. Eu, que não tenho vista da janela, só vejo a o sol ou chuva chegando pelo céu refletido nos espelhos do prédio que fica de frente pro meu. Não é o céu, não de verdade. Em São Paulo às vezes isso é o que se tem.

São Paulo é uma cidade quase toda muito feia. O feio da cidade está nos fios de energia elétrica amarrados nos postes que ficam tortos com o peso. No barulho da britadeira entrando pelas frestas antes das oito da manhã de sábado. Nas empenas de prédios pintadas de bege. Nas janelas cobertas por toalhas que fazem as vezes de cortinas. Na grade de ferro solta na frente do ponto de ônibus da Avenida Nove de Julho. No lixo molhado acumulado depois das tempestades de verão. Nas manchas de fuligem acumuladas em mobílias no inverno. Na história do café que se disfarça de orgulho para tentar esquecer da escravidão. Na erva daninha que cresce sem controle, alimentada pelo sol e pela chuva em qualquer pedacinho de calçada. Essa São Paulo da qual você não pode se esconder toda vez que coloca o pé fora de casa é o mais perto que existe da São Paulo de verdade. A São Paulo da fila de desabrigados pedindo um prato de comida ou qualquer coisa que ajude a sobreviver na missão do Glicério. Das familias acampadas debaixo de plástico preto nas ruas paralelas da Paulista. Dos dependentes de crack vagando pelo Anhangabaú cuja reforma custou milhões dos cofres públicos. Das pessoas que encaram rotinas de três, quatro horas dentro de transporte público lotado porque a economia não pode parar.

É impossível olhar pra essa São Paulo e dizer, ah, que linda — não é. É preciso não romantizar essa cidade. Parar de fingir que o horror cotidiano de São Paulo é menos importante que os modernistas de 1922, que os heróis da revolução perdida de 1932, que o Obelisco do Ibirapuera, que a arquitetura de Higienópolis, que a imponência da Catedral da Sé, que a riqueza cultural do Bixiga, que a originalidade da vanguarda paulistana, que a beleza dos edificios do Ramos de Azevedo, que a eletricidade das juventudes periféricas. O horrível e o belo, o miserável e o rico, a fome e a fartura convivem na mesma calçada. Não existe vacina pra isso.

São Paulo só voltará a ser a Grande Metrópole Sul-Americana a que se destina quando olhar para a sua miséria com a mesma atenção com que olha para seus ricos, quando der para sua desigualdade a mesma atenção que dá para seu passado, quando colocar no combate ao horror cotidiano a mesma força que colocou em seu histórico de progresso. Enquanto São Paulo se recusar a olhar para o que tem de pior, continuará relegada ao papel de capital inventada de uma suposta elite cultural: uma cidade ultrapassada e ineficaz.

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Gaía Passarelli

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