já fui melhor nisso.

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não é meu melhor dia. estou irritada por não ter me preparado direito para algo que sei que sei fazer. tenho um apagão de nervoso logo na entrada, a câmera ligada e eu incapaz de lembrar o que tenho pra falar. me distraí com o fato de tenho duas câmeras e não sei para qual olhar. espero a diretora falar no ponto, assim quem sabe o fone, gordo demais dentro da minha orelha pequena, sirva pra alguma coisa. mas não chega nada além de ruído. acho que meu apagão dura menos que uma fração de segundo. uma das colegas convidadas para o painel me olha espantada, com cara de “vai gata, acorda” e essa é minha deixa pra começar a falar rápido qualquer coisa, algo como meu nome, os nomes das colegas de palco e então ah-que-legal-gente-falem-aí e seja o que a deusa quiser. só depois que elas começam a falar eu lembro que não disse nem o nome e nem o assunto do painel, informações que conheço há pelo menos um mês e que estavam anotadas na pauta que preparei no pequeno caderno que tenho nas mãos. mas já perdi o tempo. boto a culpa no fato de que não almocei. ou almocei —pipoca é almoço?

mais cedo, cheguei adiantada. o nosso é o primeiro painel do evento e por isso deve ser pouco visto e por isso eu estou tranquila mas também por isso a produção está nervosa. desço a pequena rampa da entrada para o subsolo e me deparo com o clima elétrico de bastidores. a Produtora Responsável me encontra na porta e me lembra de limpar os pés num tapetinho úmido e exibir o pulso para medição de temperatura. uma moça na porta me entrega uma pulseira. não diz mais nada, então fico ali esperando até a Produtora Responsável voltar e me avisar que posso entrar e sentar na pequena sala de espera improvisada para não-notáveis — vejo que há uma outra sala, mais na frente, com cooler de bebida, luz e fundo pra fotos com logotipo de patrocinador.

uma das convidadas para a conversa, a Curadora de Prêmio Literário Importante,já chegou. me apresento e sento perto dela, mas não muito. engatamos um papo fácil, comendo a pipoquinha de pacote da marca de produtos industrializados-porém-saudáveis que patrocina o evento. a Curadora quer tirar a mascara para conversar, mas não pode. damos um jeito e ela é ótima, trouxe dados e números, conta que anda falando com escritores e que tem a sensação de que nunca se produziu tanta literatura no Brasil, coisa que na hora anotei na minha pauta para puxar pro papo no palco depois. eu não contei que também escrevo coisas, porque teria que contar que essas coisas ficam estacionadas em cadernos e no computador, e nem comento que já publiquei um pequeno livro de aventuras de viagem, do qual só me orgulho porque rende pagamentos semestrais até que decentes. mas fico satisfeita de ouvir a Curadora contar que também tem dificuldade de ler, não anda conseguindo se concentrar nem sequer os livros que precisa ler como obrigação profissional, e por isso tem buscado reler livros que amou na juventude como forma de inspiração e que aí sim a leitura flui apaixonada. percebo que adoro falar com ela, que já estou eu mesma meio apaixonada, mas não pergunto que livros são esses para deixar o assunto para o painel e também porque quis que ela continuasse a falar enquanto na minha cabeça me pergunto se eu poderia ter sido como ela, talvez se eu tivesse estudado eu fosse mais como ela, ela que fala tão bem sobre livros e ideias e coisas interessantes, que não é séria e nem chata e é levemente autodepreciativa, e conta que voltou a nadar, faz confusão com os sabores dos pacotes de pipoca, ri, diz que agora bebe todos os dias a partir da hora do almoço, quando entra na cozinha para preparar comida. eu quis comentar que também bebo todos os dias, talvez para mostrar que, olha só! álcool! temos algo em comum!

nessa hora chega mais uma participante, a Editora-Executiva de Revista Importante, e se senta conosco na pequena sala de espera improvisada. ela usa uma máscara linda de cetim de seda em cor de pérola, veste algo azul e verde que parece linho, tem os cabelos grisalhos cacheados e repartidos de lado. a Curadora tem os cabelos grisalhos também, curtos de um jeito moderno. temos 40, 50, 60 anos e me sinto muito confortável com elas, mais do que com as minhas amigas de 30. a Editora elogia meu cabelo, que estou deixando crescer pela primeira vez desde a adolescência, e eu aceito sem modéstia: meu cabelo está lindo mesmo, eu exibo minha própria mecha grisalha do lado esquerdo do rosto, ela elogia, diz que é charmoso. pergunto como está a Revista Importante, ela conta que não consegue mais escrever sua coluna fixa, que era sobre a vida da mulher 40+ em São Paulo, e que agora tudo parece ora absurdo, ora banal. comenta que a maior parte das colunistas sofre do mesmo problema e que não insiste, entrega o trabalho que é necessário entregar, sequer se obriga a ler.

quando falta pouco para subirmos ao palco, onde o painel será captado e exibido online, outra Produtora aparece e começa a me dar instruções de como receber perguntas da audiência no WhatsApp. quando faltam literalmente dois minutos pra entrada chega a última panelista, a Apresentadora de TV, linda num vestido envelope estampado, os pés bem cuidados ocupando um par de sandálias de tiras. todas elas estão elegantes e vestidas de forma adulta, eu estou de jeans, camiseta e jaqueta de couro e Converses e sei que mais tarde terei algum pesadelo sobre me sentir fora de lugar, que levarei isso pra terapia, que comentarei com uma amiga que dirá algo inócuo como "imagina, sua jaqueta é linda". a Produtora volta, explica que só poderemos tirar as máscaras no palco e nos leva para dentro de uma cozinha, através de uma escadaria e pra dentro de um teatro.

é então que recebo as instruções da Diretora do Evento— tem ponto eletrônico, faz uma apresentação e fala devagar, deixa uma pausa entre as apresentações, que é pra câmera mostrar a legenda com os nomes e créditos. ok? ok, claro, tudo bem, entendi tudo, já fiz isso antes. no palco as duas Mulheres Empresárias e Criadores do Evento esperam acabar a vinheta de abertura e fazem um curto discurso de boas vindas. mesmo o discurso é truncado — quando uma tenta passar pra outra ela manda de volta, parece que faltou ensaio e eu não vou culpar ninguém, esse ano é no improviso e na coragem de que vai dar certo e principalmente no afeto, mas eu não gostaria de estar no lugar delas. eu gostaria, sim, de trocar de lugar com qualquer uma das minhas colegas de painel. começo a ficar nervosa quando a produção começa a repetir informações sobre onde sentar, o que falar, quando chamar perguntas da audiência. ninguém me diz pra qual câmera olhar. três pessoas chegam pra colocar o ponto eletrônico no meu ouvido e mesmo assim não fica bom, ele é grande demais, o cabo fica solto nas minhas costas, a fita não segura, ele cai. eu absorvo o nervosismo das pessoas. a Curadora quer saber se pode agradecer um patrocinador, imagino que sim mas quero perguntar pra Diretora e ela lá longe não me ouve e eu entro naquele lugar ansioso e isolado dentro da minha cabeça onde a única coisa que posso fazer é improvisar esperando o melhor. é Oxalá quem guia.

o que me salva do apagão total é a enorme vontade de não passar vexame na frente das mulheres que eu admiro. rezo para o tempo passar rápido, o que me faz falar rápido demais e nem de longe é bom o suficiente. mas ninguém parece se importar o desconforto passa, o assunto flui, o relógio começa a andar e quando vejo a produção já está nos tirando do palco, fazendo fotos, esterelizando tudo para o próximo painel, que tem hora pra começar, então vamos rápido, por favor. nṍs quatro descemos a escada e continuamos a conversa com simpatia e gentileza, ninguém me olha estranho, eu bebo uma garrafa inteira de água em um gole só, a produção começa a discutir por algum motivo que não entendo, uma mulher que vai participar de um próximo painel entra no lugar sem acompanhante e parece perdida, ninguém sabe como ela chegou ali, nem ela — coisas de evento ao vivo, penso, não sou só eu, tá todo mundo tentando. penso que começo a entender a confusão: ninguém se vê há meses, todos queremos conversar e não sabemos mais como nos ouvir. eu quero ir pra algum lugar com luz mas a Produtora continua envolvida numa discussão, a Curadora continua querendo falar com a Diretora do Evento, a Editora e a Apresentadora continuam querendo conversar por debaixo dos psiu de um Assistente de Direção e eu de novo temo que as pessoas estejam nervosas porque algo deu errado e que de algum jeito isso é minha culpa. não sei como, mas é. finalmente, a Produtora pára de discutir e nos leva escada abaixo, por dentro da cozinha e de volta aos sofás onde tem pipoca e onde recebemos envelopes com nossos nomes e é para esperar um pouco porque parece que tem sacolas com brindes.

antes dos brindes nós temos que ir uma de cada vez dentro de uma outra sala para abrir os envelopes, checar o pagamento simbólico porém bem-vindo e assinar um papel preenchendo dados numa caneta que limpamos com lenços com álcool. eu assino, recebo o dinheiro e os brindes e volto para ouvir a Apresentadora contando sobre ter dito COVID. ainda nao conversei com ninguem que teve manifestação grave da doença. ela conta que ficou vinte dias de cama, não era capaz de levantar nem pra tomar banho, tudo era feito com ajuda do marido. os medicos não sabem se ela pode pegar de novo, há relatos de gente pegando a doença duas vezes. e de qualquer formal ela pode transmitir, continua sendo vetor, todas podemos. ficamos em silêncio para absorver a informação e de repente quero muito sair, inventar uma próxima etapa do meu dia. dou tchau de longe, elogio a camiseta de uma amiga, subo a rampa pra ir embora e me pedem pra voltar — faltou uma foto, um vídeo pra redes sociais. ficamos em fileira, uma ao lado da outra, sem saber se é permitido encostar ou não. improvisamos algumas palavras, sorrimos, a Fotógrafa diz que tá ótimo, obrigada. na sacola tem uma porção de brindes tipo creme hidratante, batom, caderno, outra garrafa de água e mais pacotes de pipocas. decido que a pipoca sabor azeite e pimenta será meu almoço e que a ajuda de custo vai pagar uns drinks no bar do meu amigo, ali perto, onde não tem ninguém e eu posso sentar no balcão e beber e ouvir musica e conversar de longe, sem neurose e sem perdigotos.

mais tarde, uma mensagem chega e planos mudam. meu almoço acaba sendo uma porção de batatinhas no Bob's da Praça Dom José Gaspar e fico feliz de andar numa parte da cidade onde vivi tantos blocos, festas, brigas, almoços, cervejas, amores, choros, festinhas de apartamento, pagodes e afins. mas sempre é preciso ressignificar e então me sento com pessoas que não fazem parte dessa vida passada, pessoas que na minha geografia pertencer a outro lugar, mas que estão aqui e agora. com elas eu bebo Cynar, que eu não bebia, e fumo cigarro, que eu não fumava, e dou risada, o que tem sido raro. e me despeço deles, dessa etapa. também acho que encontro alguém que conhecia, mas me enganei. eu não conheço mais nada.

(São Paulo, setembro 2020)

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Gaía Passarelli

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