Durma com um barulho desse

RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR

Não durmo bem há um tempo. Dezoito meses, para ser exata. Lembro direitinho quando foi que minha insônia começou, em janeiro do ano passado, na minha primeira noite no apartamento novo. Estava sozinha, exausta e feliz depois de um dia inteiro transportando e abrindo caixas, pronta para uma noite de sono restaurador na nova morada. Aconteceu depois daquele horário em que se apaga o ruído comum da cidade, quando os ônibus e carros deixam de circular de forma tão intensa, depois das onze da noite. Queria poder culpar aquelas coisas que todo mundo culpa quando não consegue dormir, como alguma dor, o noticiário, refluxo gástrico, boletos não pagos, o choro de um bebê com dor de dente no andar de cima, vizinhos festivos, o pressentimento de um novo 7 a 1 ou a catástrofe iminente da civilização. Queria porque essas coisas podem não ser solucionáveis mas são desligáveis, ainda que durante algumas horas. Mas meu problema era mais físico, tangível, irreversível e estava naquele instante me encarando do outro lado da janela do meu apartamento bonito, espaçoso, bem localizado e com pé direito alto numa esquina perto do MASP: a parede de fundos do Hospital 9 de Julho, com suas dezenas de aparelhos de ar-condicionado que nunca desligam, emitindo seu RRRRRRRRRRRRRRRRRRR infinito, imperceptível de dia e inescapável de noite, um ruído que desde então vibra nos meus tímpanos e são parte de uma paisagem sonora com a qual eu simplesmente não posso acostumar. Mas tentei. Na esperança de aprender a contornar o que é irremediável busquei soluções diversas: fazer yoga e meditação antes de deitar, começar a rotina às seis da manhã para estar bem cansada antes das dez da noite, ler "Graça Infinita", instalar um aplicativo de white noise. Na falha das opções saudáveis, também tentei bebida, maconha, dormir fora de casa, ir para a cama só quando amanhece. Sendo o barulho tão parte da vida na cidade, pro bem e pro mal, tentei até gostar da idéia de que meu corpinho afetado pelo ruído do ar que esfria os corredores do pronto socorro do hospital poderia um dia servir de objeto de estudo de alguma ramificação das ciências da audição humana. Sem sucesso. Hoje, exatos dezoito meses depois da primeira noite de sono arruinado, celebro a solução definitiva entre caixas de papelão que aos poucos são preenchidas: estou me mudando para um apartamento que dá de frente para a rua.

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