"Caffeine" e outras histórias sobre café

Tenho um amigo-leitor que certa vez me fez o enorme favor de ler um projeto de livro meu e dizer que até era bom mas não bom o suficiente para eu mostrar para outras pessoas e que, ao comentar meus escritos, perguntou: qual é a dessa coisa com café?

Claro, muito imersa na minha própria obra eu não tinha notado que talvez a história, sobre uma mocinha situação de romance maldito com um escritor fracassado enquanto protestos explodem em São Paulo e o Grupo Abril desaba na Marginal Pinheiros, não fosse sobre a minha incapacidade de escolher bons parceiros, nem sobre o estado da mídia no Brasil, nem sobre adultar em meio a um ambiente político e social desgraçado: era sobre falta. De café, inclusive. Há diversas menções ao café e uma preocupação constante da protagonista em acordar e fazer café, checar se ainda há café, roubar cápsulas de café do trabalho, tomar café numa conversa. Você entendeu.

Meu amigo leitor foi, claro, bem mais gentil do que pode parecer (o livro inacabado tem bons trechos e segue escondido em uma sacola no fundo de um armário no meu escritório) mas o conselho foi um dos melhores que já recebi. Lendo o livro depois de uns dois anos e tanto eu quis morrer de vergonha. É horrível, e talvez tenha sido depois disso que desisti de escrever ficção. E até parei de escrever, por motivos demais pra tentar encaixar aqui agora.

Mas nunca parei de tomar café e nem de me precaver de forma maníaca contra a falta dele.

Em casa é fato: jamais falta café nem que eu tenha que contar moedas e comprar o pó mais barato. Nem que eu peça café no vizinho. Nem que eu roube café no trabalho.

Acontece que a ideia de ficar sem café me causa nervoso, porque eu preciso demais dele pra acordar. Não sou o tipo de pessoa que bebe baldes de café ao longo do dia, pelo contrário, é uma quantidade moderada e sensata que faz parte da minha rotina regular: uma xícara grande de manhã, ao acordar, e depois talvez uma segunda dose de tarde dependendo de como o dia estiver acontecendo.

Mas, sinal incontestável de vício, eu planejo minhas doses de cafeína, me preocupo com elas de antemão. Por exemplo, se eu estiver indo dormir e não tiver café, a chance é que vou me obrigar a sair e comprar em qualquer lugar aberto (morar na Paulista ajuda). Mesmo que esteja chovendo. Mesmo que esteja fazendo sete graus lá fora. Mesmo que eu esteja doente. Eu vou garantir o café da manhã seguinte com um zêlo, um compromisso, uma responsabilidade que sequer questiono.

Ninguém questiona. Porque a cafeína é um vício químico aprovado e incentivado pela sociedade, tão forte e tão enraizado em nossas culturas, tão parte da nossa vida que quando alguém questiona é ranzinza. É o Luke de Gilmore Girls.

De onde isso vem e por quê? O Michael Pollan (autor norte-americano, pesquisador, jornalista) explica em “Caffeine” (disponível só na plataforma Audible, com pouco mais de duas horas de duração e que vale cada centavo do preço de quase nove dólares). Eu escutei semana passada ao longo do preparo de umas três refeições na cozinha de casa.

Pollan começa contando do seu próprio vício que é como o meu e (provavelmente) o seu também — ele toma café todos os dias no mesmo horário desde sempre e sem jamais questionar ou enxergar um problema nisso. Quero dizer, tem as dores de cabeça da manhã, aquela letargia ao acordar que conhecemos tão direitinho e que o café, e só o café (ou o seu irmão chá, que tem a mesma quantidade de cafeína), pode resolver. Levamos isso como parte da vida adulta. Mas Pollan decide parar em nome do bom jornalismo, para ter distanciamento de seu objeto de estudo.

Ele não gasta tempo do seu livro sofrendo com os efeitos da abstinência de café, que qualquer um/a que tenha ficado sem beber sabe como é: sono, irritação, desarranjo intestinal, dores de cabeça avassaladoras — já passei por isso, não gosto nem de lembrar. O que o autor faz é explicar como esse processo começou. E ele vai lá atrás da biologia das plantas Camellia sinensis e Coffea arabica, nas reações que elas causam nas abelhas, na lenda de que pastores árabes identificaram um comportamento agitado em cabras que comiam os grãos de café.

E melhora. Pollan passa pela relação entre o consumo de café diluído em água e as descobertas de civilizações orientais, que desenvolveram matemática e medicina enquanto na Europa a galera descafeinada ainda botava cruz em cima de ferida buscando cura. O papel crucial do café e do chá nos processo de colonização europeus nas Américas e na Ásia. A briga por chá que deu nas Guerras do Ópio na China. A sensacional história do roubo de uma muda de planta de café que foi contrabandeada para as Américas. O papel do café na Revolução Industrial. O café e o Iluminismo.

Após a primeira hora de audição você já está questionando a banalidade da bebida preta que está esfriando na xícara. E em algum momento vem e vontade de parar de compactuar com o café que, afinal, agora soa como uma parada meio maligna.

É possível parar de beber café? Parar totalmente? Claro que sim. Pollan fala com médicos e pesquisadores de cafeína (que não por acaso não são consumidores do seu objeto de estudo.) Mas eu não tenho, francamente, saúde mental para encarar um detox real de cafeína, que pode levar até três semanas. Não agora. Na verdade não consigo achar um motivo válido para fazer isso. Como deixar de fazer parte da sociedade consumidora de cafeína, que é TODO MUNDO?

O mesmo vale para o autor, que volta a beber café antes do final do livro. Não é spoiler, ele entrega logo no começo. O que o leitor ou ouvinte não tem como prever é o efeito glorioso (e meio assustador) que a xícara de café tem no corpo da pessoa livre de cafeína. Da ação imediata da substância no cérebro, da alteração de comportamento que dura apenas o suficiente para você querer mais, e que Pollan descreve com gosto.

Café é pior que crack. É a relação tóxica da qual você não quer se livrar. Étão eficiente, tão bom e está tão impregnado no nosso afeto coletivo que de repente a ideia de me livrar do café só para poder voltar pra ele depois é uma coisa que faz todo sentido.

Vai lá: "Caffeine", Michel Pollan, no Audible
Procure também:
"A História do Mundo em Seis Copos", Tom Standage

(photo: https://stocksnap.io/photo/white-cup-7PH7TYSQW5)

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